Isac Marcelino – Piquiá de baixo

Projeto TF/TK

Traduzindo Ferro/Transformando conhecimentos em Arquitetura, Projeto e trabalho para um novo campo de Estudos da Produção é um projeto em colaboração Brasil/UK financiado pelo AHRC (UK) e pela FAPESP com o objetivo de definir e consolidar um novo campo de Estudos de Produção, estruturado e informado pela obra do arquiteto e teórico brasileiro Sérgio Ferro.

Conduzido por um time anglo-brasileiro de 2 Investigadores Principais, 4 Co-Investigadores, 2 pesquisadores de Pós-doutorado e 2 bolsistas de Treinamento Técnico, o TF/TK é um projeto de 4 anos de duração, que se contrapõe a atual crise global da construção civil, reunindo arquitetura, história e teoria, trabalhadores formais e informais da produção do ambiente construído, organizações parceiras e escolas, da economia política, história da arte e antropologia para reunir, estruturar e aplicar o campo transcultural e interdisciplinar dos Estudos de Produção. O TF/TK tem início em outubro de 2020, com os seguintes objetivos centrais:

Reunir e estruturar recursos e métodos para Estudos de Produção (PS) que promovam a compreensão crítica das relações entre projeto e construção e identifiquem alternativas nas quais os processos formais e informais de construção possam tornar-se catalisadores para a mudança social. [Site e repositório TF / TK]

Fornecer traduções para o inglês e respostas críticas multidisciplinares ao trabalho de Sérgio Ferro que testem o potencial de seus métodos e teorias como um referencial para os Estudos da Produção. [publicações e grupos de leitura]

Envolvimento acadêmico em arquitetura e disciplinas relacionadas, e produtores do ambiente construído no teste e coprodução de estudos exemplares para pesquisas futuras em Estudos da Produção. [estudos de caso em PS]

Engajamento de uma ampla gama de públicos, transformando a consciência das condições em que o ambiente construído é produzido por meio de palestras, exibições e workshops, e apoiando os produtores de base existentes por meio do fortalecimento de redes e recursos de livre acesso. [programa de eventos]

O primeiro ano do projeto é dedicado à tradução de obras selecionadas de Sérgio Ferro, para publicação e debates mensais em grupos de leitura em inglês e português, envolvendo um campo internacional de atores, ativistas e acadêmicos. Organizamos palestras com membros do Conselho do TF/TK (Advisory Board) – Linda Clarke (UK), Carlos Martins (BR) e Peggy Deamer (US) – e demos início ao trabalho junto ao grupo composto por 20 pesquisadores afiliados. Nosso website dedicado aos Estudos da Produção e repositório está em desenvolvimento e será lançado em nosso primeiro evento público na Central St. Martins, em Londres, em fevereiro de 2022.

Sérgio Ferro

Desde a década de 1960, o arquiteto, pintor e teórico brasileiro Sérgio Ferro vem desenvolvendo a investigação mais robusta sobre desenho, trabalho e canteiro de obras, mas seu trabalho permanece pouco conhecido fora dos contextos brasileiro e francês onde foi desenvolvido. Como muitos artistas e arquitetos de destaque, incluindo João Vilanova Artigas e Oscar Niemeyer, Ferro ingressou no Partido Comunista Brasileiro em 1959. Mas foi quando teve a oportunidade de projetar e construir em Brasília que foi exposto à violenta realidade do canteiro de obras, em contradição direta com os ideais humanistas e emancipatórios da Arquitetura Moderna. Ferro começou a buscar uma resposta na teoria marxista para as condições do modo de produção da arquitetura.

Ainda durante seus estudos na FAUUSP, Ferro formou um coletivo junto a Rodrigo Lefèvre e Flávio Império que ficou conhecido como o grupo Arquitetura Nova, dando início a um intenso período de atividade criativa de pintura, teatro, estudos teóricos e arquitetura. Juntos, eles iriam produzir uma série notável de casas e edifícios marcados em particular pelo uso de materiais rudimentares e a abóbada catenária. O grupo foi homenageado com uma edição inteira da revista de arquitetura Acrópole em 1965 e, em 2019, o trabalho de Ferro com Arquitetura Nova foi a peça central da Bienal de Arquitetura de Orléans, França. O grupo é tema de uma edição especial de dupla linguagem da arquitetura brasileira jornal arq.urb (2020), que inclui artigos de muitos membros da equipe TF/TK. 

Em 1967, durante a ditadura militar, Ferro deixou o Partido Comunista e ingressou em grupos de resistência armada. Publicou seus primeiros textos analisando a produção da habitação popular e da arquitetura brasileira contemporânea antes de ser preso e demitido da Universidade de São Paulo. No ano seguinte, Ferro exilou-se na França, onde lecionou na Escola de Arquitetura de Grenoble até sua aposentadoria em 2000 e na qual contribuiu para a fundação do laboratório de pesquisa e ensino Dessin/Chantier. Nessa época e à distância do Brasil, publicou a primeira versão de seu mais importante texto arquitetônico “O Canteiro e o Desenho”, posteriormente publicado em francês como “Dessin/Chantier” (2005). A ampla obra publicada de Sérgio inclui, por exemplo, discussões sobre as consequências para a construção e trabalho das intenções dos projetos escultóricos de La Tourette, do arquiteto Le Corbusier, os significados do trabalho na escultura e arquitetura de Michelangelo, o surgimento e os usos do desenho clássico na extração de mais-valia do trabalho de construção. Em 2006, Arquitetura e Trabalho Livre, uma coleção de ensaios da Ferro editada por Pedro Arantes (co investigador do TF/TK) foi publicada no Brasil com grande aclamação, influenciando historiadores, teóricos e ativistas que trabalham com movimentos populares, seguido por duas outras obras publicadas “Artes Plásticas e Trabalho Livre” (2015) e “Construção do desenho clássico” (2021), o segundo editado por Silke Kapp, também co-investigadora do TF/TK.

Os trabalhos de Sérgio Ferro demonstram que desde que o desenho foi separado do canteiro de obras, ele foi cúmplice da expropriação da força de trabalho no canteiro de obras, funcionando como mero prestador de serviços no processo de produção capitalista de valor. E, inversamente, Ferro aponta para a reinvenção de um modo de “desenho imerso no retorno da autonomia produtiva” que seria “o oposto contraditório da indignidade de escravizar o desenho a serviço do capital.” Liderado por Silke Kapp, com a colaboração da pesquisadora de pós doutorado Marianna Moura e das tradutoras Ellen Heyward e Ana Naomi da Sousa, o TF/TK vem editando e traduzindo 3 volumes da obra de Sérgio Ferro para o inglês:

  • Arquitetura vista de baixo: um leitor que mostra toda a amplitude metodológica, teórica e histórica da obra de Ferro
  • Dessin / Chantier – Edição Crítica: será a primeira tradução para o inglês do texto seminal de Ferro, publicado pela primeira vez em português (1976, 1979), depois em francês (2005) e em Arquitetura e Trabalho Livre (2006). A publicação é financiada pela Universidade de Grenoble.
  • A construção do Desenho Clássico – Livro mais recente de Ferro publicada em português em 2021

Nosso objetivo ao traduzir o trabalho de Ferro, é primeiro fornecer uma base crítica, teórica e metodológica comum para os Estudos de Produção, e direcioná-la para a ação social e torná-la finalmente disponível para o mundo anglófono.

Ao longo de 2021, estaremos lendo esses textos à medida que são traduzidos e debatendo-os em grupos mensais de leitura em português e inglês, envolvendo um corpo crescente de profissionais, ativistas e acadêmicos internacionais. Estamos compilando algumas das questões que o trabalho de Ferro levanta entre disciplinas e práticas.

Isac Marcelino – Piquiá de baixo

Estudos da Produção

Diante do contexto contemporâneo de relações desconectadas de produção, esgotamento de recursos e condições de construção cada vez piores em todo o mundo, o TF/TK olha para o trabalho de Sérgio Ferro em busca de avanços no entendimento crítico das relações entre projeto arquitetônico, produção e trabalho na construção. Em consonância com Ferro, o projeto resiste à elevação social e técnica dos arquitetos sobre os construtores, e propõe a geração de novos conhecimentos em Estudos de Produção através da colaboração entre produtores de edifícios formais e informais, profissionais de design, professores e acadêmicos. Nosso objetivo ao propor o campo urgentemente necessário dos Estudos de Produção é fomentar a análise crítica interdisciplinar destas relações, ao mesmo tempo em que avança no desenvolvimento de alternativas responsáveis e justas.

Além de investigar a produção do ambiente construído e as histórias e teorias de suas relações, procuramos identificar alternativas existentes e possíveis novas formas de produção nas quais os processos de construção – em si mesmos e não apenas seus produtos – possam se tornar catalisadores para a mudança social. Ao integrar os projetos intelectuais e empíricos a um programa ativo para geração de autonomia, igualdade, justiça, criatividade e prazer, buscamos promover estes valores a aspectos fundamentais da produção social e material do espaço.

Como forma de efetivamente gerar mudanças, buscamos transformar o conhecimento do projeto e da produção de edifícios através de uma série de atividades realizadas com acadêmicos na área de Estudos de Produção, pesquisadores e produtores do ambiente construído, além do público em geral, incluindo:

  • Um programa anual de simpósios e intercâmbios de Estudos de Produção no Reino Unido (Newcastle, Londres) e no estado de São Paulo (São Paulo; São Carlos).
  • A co-produção de 24 novos estudos de casos – que têm como objetivo tanto abordar a lacuna no conhecimento acadêmico da produção (historias de produção informal e formal, abordagens disciplinares relacionadas, tais como antropologia e ciência política), quanto fornecer recursos para novas ações e mudanças (documentando o trabalho dos movimentos sociais e autoconstrutores e registrando e experimentando formas alternativas de pedagogia do design que se envolvem com a produção).
  • Publicação e outras produções, incluindo: livretos, website, antologias, áudio-play, e exposições.

Isac Marcelino – Ataíde_o mestre – Novo Horizonte SP

Por que traduzir Ferro?

Ferro mobiliza a crítica da economia política para discutir a arquitetura (como produção material e não apenas produção intelectual). Isso abre novas perspectivas e questões sobre temas diversos, mas sempre relacionados entre si.

  • História da arte e da arquitetura
  • Economia política do projeto
  • Organizações profissionais
  • Educação e pedagogias
  • Perspectivas e movimentos sociais

O vetor que atravessa e articula esses temas é o trabalho humano.

história da arquitetura e da arte

  • Como uma obra de arte ou arquitetura se situa dentro das relações de produção da época e lugar?
  • Que mediações e hierarquias sua produção implicou ou criou?
  • E onde se situam, dentro das relações de produção, as obras não reconhecidas como arte ou arquitetura?
  • Como as mudanças estilísticas se relacionam com lutas (de classe) nos canteiros?
  • Por que os cânones clássicos se difundiram pelo mundo moderno colonial?
  • Como a difusão de territórios (Estados) soberanos contribui para isso?
  • Como as fronteiras entre estética e técnica se desenvolveram?
  • O que os mercados de arte tem com isso?
  • Como o desenvolvimento tecnológico em diferentes contextos e formações sociais definiu os papéis dos arquitetos?

organizações profissionais

  • Por que organizações profissionais de arquitetos se associam antes aos engenheiros do que aos artífices?
  • Como as atribuições profissionais (legais) de cada contexto espelham suas condições de produção?
  • Relações capitalistas no canteiro de obras levam a relações capitalistas do lado do ‘desenho’, nos escritórios?

educação e pedagogias

  • Até que ponto o conhecimento prático de construção faz parte da formação dos arquitetos em cada contexto? Por quê?
  • Como seria uma formação não alienada do canteiro?
  • Se “cada canteiro livre é uma universidade”, como as universidades podem se tornar canteiros livres?
  • Como isso modificaria a ‘frente do ensino’ na formação dos arquitetos e em outros campos?

movimentos e perspectivas

  • Como a produção coletiva de espaço ou sua perspectiva pode dar origem a comunidades politicamente fortes?
  • Que tipo de comunidade se forma entre trabalhadores nos canteiros de obras em diferentes circunstâncias?
  • E como a proliferação de trabalhadores migrantes as afeta?
  • Que orientações políticas, ativismos e movimentos sociais assumem?
  • Que perspectivas emancipatórias eles almejam? Que relações de produção eles ensaiam?
  • A experiência de trabalho (relativamente) livre leva a vislumbres de uma sociedade livre?
  • O giro decolonial abre possibilidades para outras relações de produção e outras estéticas?

Isac Marcelino – SP – Vale do Anhangabaú

equipe

Investigadores Principais

Katie Lloyd Thomas
(United Kingdom / Reino Unido)
Newcastle University, Newcastle upon Tyne

João Marcos de Almeida Lopes
(Brazil / Brasil)
Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos – Universidade de São Paulo (IAU USP)

Co-Investigadores

Silke Kapp
Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Pedro Fiori Arantes
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

Matt Davies
Newcastle University, Newcastle upon Tyne

José Tavares de Lira
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP)

Tradutoras

Ellen Heyward
Gestora de arte independente, curadora, tradutora e intérprete

Ana Naomi de Sousa
Documentarista independente, jornalista-escritora e tradutora

Pesquisadores de Pós-Doutorado

Will Thomson
Newcastle University, Newcastle upon Tyne

Mari Moura
Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Bolsistas de Treinamento Técnico

Giovana Martino
Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos – Universidade de São Paulo (IAU USP)

Lara Melotti Tonsig
Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos – Universidade de São Paulo (IAU USP)

Pesquisadores Afiliados

Alex Warnock-Smith
Central Saint Martins

Alexander Wood
New-York Historical Society Museum & Library

Christine Wall
University of Westminster

Danielle Child
Manchester Metropolitan University

Hugh Strange
Hugh Strange Architects / AHO, Oslo

Jane Hall
Assemble

Julia Heslop
Dwellbeing (Newcastle University)

Liam Ross
University of Edinburgh

Megha Chand Inglis
The Bartlett School of Architecture – UCL

Miriam Delaney
TU Dublin

Nick Beech
University of Westminster

Tijana Stevanovič
KTH, Stockholm

Tilo Amhoff
University of Brighton

Ana Paula Koury
Universidade São Judas Tadeu / São Paulo – SP

Ana Carolina Buim
Universidade São Judas Tadeu / São Paulo – SP

Caio Santo Amore
Peabiru / São Paulo – SP

Carina Guedes
Arquitetura na Periferia / Belo Horizonte – MG

Cecília Lenzi
IAU-USP / São Carlos – SP

Felipe Contier
Universidade Mackenzie / São Paulo – SP

Flavio Higuchi
Usina CTAH / São Paulo – SP

Ícaro Vilaça
Universidade Federal da Bahia – Salvador – BA

João Fiammenghi
FAU-USP / São Paulo – SP

José Thiesen
Universidade Federal de Goiás / Goiás – GO

Kaya Lazarini
Usina CTAH / São Paulo – SP

Lara Melotti
IAU-USP / São Carlos – SP

Mariana Borel
Arquitetura na Periferia / Belo Horizonte – MG

Raíssa de Oliveira
IAU-USP / São Carlos – SP

Sergio Ekerman
Universidade Federal da Bahia / Salvador – BA

Thiago Ferreira
IAU-USP / São Carlos – SP

Conselho Consultivo

Linda Clarke
Professor of European Industrial Relations, University of Westminster and runs the Centre for the Study of the Production of the Built Environment

Peggy Deamer
Professor Emerita of Architecture at Yale University and founder of the Architecture Lobby, campaigning for the value of architectural design and labour

Ana Maria Fernandes
Professor at UF Bahia. She chaired the ANPUR urban planning research organization (2005-07) and coordinates the diverCIDADE program (CAPES/FIPSE)

Carlos Ferreira Martins
Full Professor, founder and first director of the Institute of Architecture and Urbanism (IAU) at USP, São Carlos and former president of ANPARQ – National Association of Research and Graduate Studies in Architecture and Urbanism

Peter Osborne
Professor of Modern European Philosophy, Director of the CRMEP at Kingston University, and founder of Radical Philosophy editorial collective

Evaniza Rodrigues
Leader of the Union of Housing Movements – UMM, acted as a consultant to government ministries in Brazil. Holds a degree in Social Work and is a PhD student in Architecture and Urbanism

Jeremy Till
Pro-Vice Chancellor of the University of Arts, London. PI on HERA funded project Scarcity in the Built Environment and AHRC funded Spatial Agency